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Direitos Humanos e o Papel das Empresas

Direitos Humanos e o Papel das Empresas

Ambiente salubre, seguro, jornada de trabalho equilibrada, salário justo, clima organizacional agradável. Esses são alguns dos Direitos Humanos (DHs) quando aplicados ao ambiente de trabalho. Mas, a relação das empresas com os DHs não se limita apenas aos colaboradores. É necessário garantir a preservação desses direitos na cadeia de suprimentos, na sua relação com a comunidade do entorno e também junto aos clientes (o produto deve gerar valor positivo para o consumidor, eliminando danos à sua saúde física e emocional, por exemplo).

Vale destacar que o direito ao meio ambiente equilibrado, assim como, o direito à identidade de gênero, já são considerados DHs (apesar de não constarem na Declaração Universal dos Direitos Humanos de 1948). Esses dois direitos também têm muita relação com as empresas!

Dessa forma, podemos verificar o quanto as empresas influenciam e podem contribuir para o desenvolvimento sustentável da sociedade. Depende apenas do direcionamento dado aos negócios. Se a estratégia for o “lucro a qualquer custo para os acionistas” (capitalismo de shareholder) já sabemos os efeitos negativos, mas se a estratégia for baseada em outros princípios, tendo no centro o respeito ao ser humano, todos ganharão (capitalismo de stakeholder)!

Nesse sentido, destaco o movimento Capitalismo Consciente que possui como princípios: Propósito Maior, Cultura Consciente, Liderança Consciente e Orientação para Stakeholders. Esse movimento foi originado nos Estados Unidos a partir de um estudo acadêmico conduzido por Raj Sisodia, Jaf Shereth e David Wolf, tendo o seu início em 2007 com o lançamento do livro Firms of Endearment (Empresas Humanizadas). Desde então, esse movimento tem evoluído e se espalhado pelo mundo, tendo no Brasil 10 filiais regionais [1].

Já em 2008 Raj Sisodia e Michael Gelb apresentaram o conceito Healing Organizations (Empresas que Curam): “é a empresa humanizada evoluída, que tem um cuidado genuíno com todos os stakeholders e uma noção de propósito compartilhado. Organizações que curam vão além em suas expressões de amor e cuidado para com as pessoas; elas ativamente buscam fontes de sofrimento e dor, e as aliviam” [2].

Outro movimento mundial que visa contribuir para um novo capitalismo é o da B Corporation (Empresa B). O propósito maior das empresas que são certificadas como Empresa B é o de “ser melhor para o mundo” e não “ser a melhor do mundo”. No Brasil já são mais de 120 empresas certificadas e no mundo mais de 2.650 empresas [3].

Em todos esses movimentos o objetivo é colocar a razão social das empresas a serviço da sociedade, respeitando o ser humano e o meio ambiente, potencializando, assim, a garantia dos direitos humanos.

Em um mundo com tantos desafios socioambientais, cito alguns dados nacionais apenas para nos ajudar a entender a urgência de um esforço conjunto do governo, sociedade civil e iniciativa privada:

  • 30% da população brasileira tem renda de até 25% do salário mínimo (IBGE, 2021). Renda média nacional é de R$ 1.380,00 (IBGE, 2020).
  • A pessoa negra tem 2,6 vezes mais chance de ser assassinada do que a pessoa branca (Atlas da Violência, 2021), sendo que 57% da população brasileira é de pessoas negras (IBGE, 2010), ou seja, praticamente temos a mesma quantidade de negros e brancos no Brasil.
  • O Brasil é líder mundial em violência contra pessoas transexuais (Atlas da Violência, 2021);
  • O Brasil tem mais gado do que pessoas, o que requer 21,2% do território para pastagem, enquanto que para lavoura são 7,8% (EMBRAPA, 2021). Adicionalmente, significativa parte da área de lavoura é utilizada para a produção de ração animal. Tudo isso isso resulta em perda de biodiversidade e aumento das emissões de gases de efeito estufa, além de relação direta com aumento das queimadas e desmatamentos.
  • Ao longo dos últimos 36 anos o Brasil perdeu 15% da superfície de água (MapBiomas, 2021), em parte, devido à perda da vegetação.

Os desafios são muitos! Mas, cresce o movimento de empresas que estão nascendo exatamente para curar uma “dor” humana. No livro “Empresas que Curam”, várias empresas são citadas e suas histórias contadas evidenciando como elas conseguem curar. Eu citarei uma empresa que não consta nesse livro, mas, com certeza, será um bom exemplo para entender o conceito. É a empresa baiana Euzaria, voltada para a venda, principalmente, de camisas. Para cada peça vendida ela contribui para garantir um dia de aula para um(a) jovem protagonista em parceria com o Instituto Aliança, ou seja, a empresa existe para ajudar na educação de jovens (essa é a dor que eles ajudam a curar).

Novos conceitos, ideias e movimentos para um novo tempo!

Um novo tempo para o mundo empresarial, que, para manter a sua sustentabilidade, precisará cada vez mais ampliar o olhar para os seres humanos e seus direitos.

Estamos no caminho certo, afinal as empresas são feitas por pessoas, e são as pessoas que estão transformado o capitalismo. Então, vamos cuidar uns dos outros e seguir construindo uma nova história!

Referências:

[1] - Capitalismo Consciente Brasil

[2] - Empresas que Curam

[3] - Sistema B Brasil

 


Arilma Tavares é Engenheira Sanitarista e Ambiental, Mestre em Engenharia Ambiental Urbana, Especialista em Soluções Ambientais e Pós Graduanda em Direitos Humanos, Responsabilidade Social e Cidadania Global. É coordenadora de Sustentabilidade do SENAI CIMATEC.


 

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Engenheira Sanitarista e Ambiental, Mestre em Engenharia Ambiental Urbana, Especialista em Soluções Ambientais e Pós Graduanda em Direitos Humanos, Responsabilidade Social e Cidadania Global. É coordenadora de Sustentabilidade do SENAI CIMATEC.

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