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Não compre sonhos!

Não compre sonhos!

“Se você gosta de desafios, tem vontade de aprender, trabalhar em uma empresa em crescimento, onde terá chance de explorar novas idéias e inovar, aqui é o seu lugar”. Anúncios assim parecem cada vez mais comuns. Muitas empresas vendem sonhos na hora de contratar. Publicam vagas desafiadoras, ambientes de trabalho amigáveis, propósitos apaixonantes e possibilidade de carreira a longo prazo. Oferecem um mar de rosas num mundo encantado. Mas a realidade é outra! Na vida real, o dia a dia das empresas e a relação com as pessoas é bem mais complexa.

Será que ainda faz sentido estabelecer contratos e relações de trabalho dessa maneira? Num mundo que muda tão rapidamente, que tipo de relação deveria existir entre as organizações e as pessoas? Que tipo de contrato ou convenção social deveria reger essa relação para que nenhuma das partes se sinta surpreendida em nenhum momento?

Honestidade e transparência!

Quem nunca viu ou viveu a experiência de ser surpreendido por um membro da equipe com um repentino “Chefe, vou pedir demissão. Arrumei um emprego melhor para mim”. Justamente aquela pessoa que você mais contava. Ou quem nunca se sentiu surpreso com um desligamento inesperado. “Vamos encerrar seu contrato de trabalho conosco. Você não faz mais parte dos nossos planos”. Justamente quando tudo parecia ir muito bem.

A falta de feedbacks claros, objetivos e bem colocados ou, a falta de espaço para exposição de ideias e abertura para o debate, normalmente resulta em choque ou surpresa. E quando há surpresa, inevitavelmente, uma das partes sairá perdendo. Ou ambas.

Por isso a relação precisa ser honesta e transparente. É preciso haver comunicação clara e direta. Aceitar falhas como parte do processo e não apenas com o fim. Corrigir erros ao invés de puni-los. Criar um ambiente seguro para o diálogo e até mesmo para o conflito. Quando há honestidade e transparência, há também comprometimento e lealdade. Estabelece-se uma relação de longo prazo. Mesmo durante os períodos mais difíceis.

Sem honestidade e transparência, jamais haveria confiança. Sem confiança, nunca seria possível desenvolver carreiras e projetos. E seguiríamos nesse ciclo vicioso de troca de pessoas e empresas que não levam a nada. Carreiras interrompidas e projetos andando em marcha ré numa frequência cada vez maior e mais comum no mercado.

Para o bem ou para o mal, seja para qual lado for, a verdade é ninguém acorda infeliz ou insatisfeito da noite para o dia. É a soma de pequenas coisas, das pequenas ações, que são construídas, ou desconstruídas, as relações.

Quantos profissionais vão seguindo suas carreiras buscando sempre algo melhor sem concluir ou encerrar de fato seus ciclos, sem deixar legados, com entregas marcantes e resultados visíveis e perenes? Quantas empresas não desligam pessoas sem avaliar o que vem depois e todo o tempo necessário para recrutamento, seleção, entrevistas, contratação, adaptação ao novo time, fit cultural etc. ao custo da interrupção de projetos. Será que não valeria a pena um esforço maior e genuíno de ambas as partes?

Você pode caminhar tranquilamente por uma boa distância com um pedrisco no sapato. Consegue até correr com ele. Mas não por um período muito longo. Se não tirá-lo de lá, em algum momento ele pode lhe causar uma ferida, que lhe impedirá de caminhar ou correr.

Assim é a relação entre pessoas e organizações. Se os pequenos problemas do dia a dia (pedriscos) não forem tratados de forma honesta e transparente, poderão se transformar em feridas (rompimento de relações). Eis aqui o custo da interrupção.

Impossível nos imaginarmos trabalhando em qualquer empresa que seja, sem enfrentar nenhum momento de dificuldade. Sem ter de passar por nenhuma crise. Sem se sentir desmotivado em algum momento. Como também não dá para acreditar no conto encantado da empresa que imagina ter funcionários motivados 100% do tempo, superando metas ano após ano sem falhas, capazes de enfrentar crises sem marcas ou arranhões. Doce ilusão!

É preciso ser honesto e se colocar de frente para a realidade. Problemas existem em qualquer lugar, sempre existiram e continuarão existindo. Ninguém nunca está 100% pronto. Estamos em constante transformação. Assim como as empresas. Numa relação mais transparente, aceitamos mais os erros e as falhas ao longo do processo. Lidamos com mais naturalidade e focamos naquilo que realmente importa: um objetivo maior e comum. Um propósito de verdade! Que contenha desafios reais em suas mais diversas fases.

Não faço aqui, de forma alguma, apologia à mediocridade, permissividade a falta de entrega de resultados ou a cultura do paternalismo e proteção. Empresas e pessoas precisam sim de compromisso, dedicação e entrega. E também de resultados! Sempre!

Mas nem sempre o problema é apenas o desempenho baixo, a falta de resultados ou de conexão com a cultura da empresa. Às vezes é apenas uma fase ruim e temporária, entre tantas que ainda poderão surgir. Sair para “procurar algo melhor” ou “desligar para trazer alguém melhor”, geralmente deixa uma lacuna de tempo. Projetos ficam parados, pessoas não se desenvolvem, empresas não evoluem, profissionais estagnam.

A verdade é que não existem organizações perfeitas. Nem aquelas com mesas de pebolim e geladeiras de auto serviço cheias de cerveja gelada. Simplesmente porque as empresas são feitas por seres humanos. À sua semelhança e, principalmente, imperfeições.

Na relação honesta e transparente, não vendem-se sonhos de um mundo imaginário de funcionários apaixonados e empresas perfeitas. Nela, entendemos e assumimos as nossas falhas. Optamos por discuti-las e corrigi-las em prol de um objetivo maior. Reconhecemos que não somos tão bons quanto pensamos ser, nem que as empresas são organizações precisas como um relógio suíço. Deixamos de criar altas expectativas, de nós e dos outros e, aceitamos que talvez só um pouco de gentileza, paciência e uma simples conversa, honesta e transparente, já seja suficiente para resolver boa parte dos nossos problemas e tornar a vida menos complicada.

#EMFRENTE!

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